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Audição Entrevista – Dra. Tanit Ganz Sanchez


audicao tanit zumbidoO I Encontro sobre Zumbido da Zona da Mata trouxe a Juiz de Fora uma das maiores especialistas do Brasil a respeito do zumbido, a Dra. Tanit Ganz Sanchez. Confira a entrevista que fizemos com ela a respeito do tema. Prof. Dra. Tanit Ganz Sanchez: professora doutora associada da Faculdade de Medicina da Universidade de São Paulo (FMUSP), fundadora do Instituto Ganz Sanchez, criadora do Grupo de Apoio Nacional a Pessoas com Zumbido (GANZ) e a principal responsável por várias ações pró-conscientização do zumbido no Brasil desde 1994.

 

Como podemos definir o zumbido? É um som que as pessoas escutam no ouvido ou na cabeça, especialmente no silêncio. Pode parecer apito, chiado, cachoeira, cigarra etc. Algumas pessoas só o ouvem se prestarem atenção; outras o percebem o dia todo.

 

É comum ter zumbido? Sim, cada vez mais. De 1995 a 2010, o zumbido aumentou de 15% para 24% na população geral, muito mais do que asma, surdez, cegueira ou Alzheimer. E o pior: muita gente ainda não ouviu falar disso.

 

Os jovens também têm zumbido? Para nossa surpresa, dentre 506 crianças de 5 a 11 anos, 37% delas tiveram zumbido em pesquisas recentes; dentre 170 adolescentes entre 11 e 17 anos, 54% também referiram zumbido, ou seja, isso é mais do que a população geral. Diferente dos adultos e idosos, o zumbido dos jovens começa antes da audiometria acusar qualquer perda auditiva. Esses ouvidos com zumbido podem ser mais sensíveis a lesões no futuro, por isso, devem ser avaliados com mais frequência e mais cuidado.

 

Como se sente uma pessoa com zumbido? No início, muitos ficam preocupados e pensam “será que isso é algo grave?”, “e se eu piorar?”, “será que vou ficar surdo?”. Cerca de 20% têm dificuldades para dormir e se concentrar no trabalho/leitura, ficando mais ansiosos ou deprimidos. Os outros não costumam se importar.

 

O que pode causar o zumbido? Ele costuma ser “sinal de alerta” de algum problema no ouvido ou em órgãos próximos. Em adultos e idosos, geralmente ele é consequência de alguma perda auditiva (mesmo que pequena). Nos jovens, ele precede a perda de audição. Várias causas de zumbido já são conhecidas e algumas até são fáceis de identificar e tratar. Problemas comuns são os erros alimentares (principalmente o jejum prolongado, o abuso de cafeína, doces e gorduras), exposição a sons altos, otites, labirintites, diabetes, pressão alta, colesterol, envelhecimento, tumores etc. Problemas emocionais também causam zumbido. Portanto, uma única pessoa pode ter várias causas para o zumbido, que devem ser pesquisadas detalhadamente.

 

O que a pessoa deve fazer se tem zumbido? Procure seu médico otorrinolaringologista de confiança. Ele saberá lhe orientar adequadamente. O importante é investigar o que pode estar afetando o seu ouvido. Tudo que puder ser revertido ou controlado tem chance de melhorar o seu zumbido. Lembre que o envelhecimento natural dos ouvidos não é uma doença, mas sim um processo natural, lento e gradativo. Nessa fase, a maioria dos zumbidos ocorre com algum grau de perda auditiva que já poderia ser ajudado com aparelho de audição, por mais que as pessoas ainda tenham preconceito e achem que não precisam. Assim, de acordo com pesquisas sobre os neurônios auditivos, o uso de aparelhos auditivos modernos (disponíveis no Brasil apenas desde 2010) teria múltiplos benefícios: melhorar a audição e o zumbido, além de prevenir a piora da perda de memória, já que a perda auditiva sem tratamento virou fator de risco para demência, que também é mais comum a 3ª idade.

 

Há algum tratamento para o zumbido? Sim, vários. Alguns são simples e rápidos, outros lentos ou sofisticados. Nenhum deles pode ser generalizado para todos os casos. O melhor é personalizar para cada caso, considerando as causas do zumbido em cada paciente e a presença ou não de perda auditiva, hipersensibilidade a sons ou tontura.

 

Como prevenir o zumbido? São várias dicas. Com fones de ouvido, evite ultrapassar a metade da potência do seu aparelho ou usar mais que 2 horas seguidas. Alimente-se bem. Evite excesso de cafeína, doces, álcool e nicotina. Diminua o tempo de contato do celular com o ouvido, use mais viva-voz ou fone e troque o que for possível por mensagem de texto. Evite automedicação, pois certos medicamentos podem causar zumbido e incorpore mais atividades de prazer à sua vida: atividade física, passeios, relacionamentos saudáveis, cinema etc. Momentos de felicidade ajudam a restaurar nossos órgãos, inclusive os ouvidos.

 

Na sua visão, qual a importância de eventos como o I Encontro sobre Zumbido da Zona da Mata, que reuniu profissionais da área para debater o tema? Fiquei muito feliz com o convite (e a oportunidade) de falar pela primeira vez na Zona da Mata. Falar ao mesmo tempo para otorrinos e fonoaudiólogos de uma mesma região, que são os profissionais que precisam fazer parcerias entre si para melhorarem a qualidade de atendimento dos pacientes com zumbido, é o ponto inicial para o desenvolvimento de estratégias para isso ocorrer. Há alguns anos, comecei a ser chamada para dar aulas e cursos específicos no Nordeste. Hoje em dia, vejo a diferença que ocorre no nível de atendimento. Quando eu recebo, em São Paulo, um paciente vindo de determinadas capitais onde eu já dei essas palestras ou cursos, geralmente esse paciente chega já tendo sido submetido a vários dos procedimentos que eu ensino. Antes disso, eles chegavam sem informação alguma. Assim, espero que a partir de agora os profissionais da Zona da Mata que puderam comparecer a esse primeiro curso possam otimizar seus atendimentos, assim como já aconteceu em outras cidades.

 

Como sentiu a receptividade dos profissionais a sua palestra no evento? Em relação à organização: eu fui super bem-recebida pelo pessoal da Audição. Em relação à plateia, eu adorei ter recebido inúmeras perguntas, o que sempre demonstra o interesse que o assunto está gerando. Além disso, achei ótimo que tivemos um número representativo de pessoas, uma vez que nossa palestra coincidiu com um grande evento da área que estava acontecendo em outra cidade. Fiquei muito agradecida pelo convite!